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Que tal unirmos tecnologia adaptativa e projetos?

22.01.2014

Tom Vander Ark escreve muito. No portal Getting Smart, que ele fundou e toca com alguns parceiros, tem artigo dele quase todos os dias. Sobre tudo que estiver relacionado ao universo de educação e tecnologia: startups com propostas diferentes, novas ferramentas, dicas digitais para professores, políticas públicas educacionais, casos bem sucedidos de redes que resolveram inovar. Mas seus textos são apenas parte de uma relação antiga com educação. Ark já foi superintendente da rede pública de Washington, ajudou a Fundação Bill e Melinda Gates a estruturar a área de educação, lançou há cinco anos o primeiro fundo de investimentos voltado à educação, o Learn Capital, é tesoureiro da iNACOL (International Association for k-12 Online Learning) e é membro do conselho de algumas dezenas de instituições do ramo da edtech.

Com a credencial de quem já transitou em posições-chave por tantos ambientes, em conversa com o Porvir, Ark descreve a tecnologia como um grande amplificador de oportunidades e aponta os movimentos que tem visto ganhar força em educação. “Existem duas coisas que parecem opostas, mas eu adoro a ideia de usá-las juntas: o aprendizado adaptativo e o baseado em projeto”, diz o autor, que é um entusiasta das mudanças que têm usado a tecnologia para colocar o interesse do aluno no centro do aprendizado. Ele fala de ensino híbrido, da troca dos tablets por Chrome Books, da conexão de professores em rede como forma de promover o desenvolvimento profissional.

Confira abaixo as principais trechos da entrevista.

 
Crédito Divulgação

O senhor tem uma trajetória muito ligada a tecnologia na educação. Que impacto os recursos tecnológicos podem ter nos processos de ensino e aprendizagem?
A coisa mais interessante sobre tecnologia é que ela é um amplificador. Ajuda professores e pais a cumprirem melhor seus papéis. A tecnologia pode aumentar as oportunidades, mas para isso são necessárias duas coisas: 1) o acesso ubíquo à internet de banda larga, garantindo que todo mundo no Brasil ou nos EUA tenha acesso à internet em casa, no trabalho ou na escola; 2) temos que garantir que todos os jovens tenham acesso a um aparelho ligado à internet, pelo menos um smartphone. Aí eles terão acesso 24 horas por dia, sete dias por semana, a essas ferramentas. É um passo importante em direção à equidade. Parece até que precisa de muito dinheiro, mas nos permitiria criar, até nas áreas mais pobres do Brasil, acesso a uma excelente educação. Poderemos ter escolas de ensino fundamental e médio ótimas, que mesclem ensino on-line e presencial e motivem os estudantes a começar a trilhar um caminho para a universidade.

O senhor mencionou o potencial do ensino híbrido, aquele que mescla momentos on-line e offline. Mas ele já foi medido o suficiente? Dá para apostar nele como uma estratégia?
Essa é uma estratégia relativamente nova. Mas ferramentas de tecnologia individuais já estão disponíveis, em alguns casos, há dez anos. Os resultados do ST Math, do Mind Research Institute, são interessantes. O ST Math é um game visual de matemática e pode ser usado por estudantes de qualquer lugar do mundo porque não usa nenhuma palavra. É independente de idiomas. Só nos EUA, vem sendo usado em 800 escolas, por mais de 500 mil alunos em dezenas de cidades há mais de 10 anos. Ele funciona em um modelo de laboratório rotacional que o aluno usa por 40 minutos, de três a cinco vezes por semana. O modelo dobrou a proficiência dos estudantes. Ele é uma coisa simples, com a relação custo-benefício alta, porque você pode ter um computador para cada quatro crianças. Ou ter um laboratório compartilhado pelo qual as crianças rotacionam, como fazem na Rocketship, a escola com melhor performance da Califórnia.

O ensino híbrido é possível em sistemas inteiros?  
É a única forma de oferecer qualidade em escala de maneira confiável no Brasil ou nos EUA. Estamos começando a ver sistemas públicos inteiros fazerem usos muito interessantes da tecnologia por todas as suas escolas. Estamos vendo um uso mais consistente em redes de escolas, como nas de charter schools, ou em outras redes, como a New Tech Network, da qual participam 130 escolas de todo os EUA. Essas escolas começaram a fazer parte da rede, passaram a usar aprendizado baseado em projetos e plataformas on-line. A implementação é possível para distritos e redes de escola.

Além do aprendizado híbrido, tem alguma outra tendência na educação que você acredite muito?  
Existem duas coisas que parecem opostas, mas eu adoro a ideia de usá-las juntas: o aprendizado adaptativo e o baseado em projetos. Adoro a ideia de usar produtos adaptativos estimulantes para preparar os alunos a criar projetos realizados essencialmente em grupo. Projetos bem construídos podem ser uma nova forma de aprender. Com as novas tecnologias, é possível combinar o aprendizado baseado em interesse e o desenvolvimento personalizado de habilidades. Cada estudante tem uma trajetória de aprendizado única. Na escola do futuro, espero que eles passem os dias em projetos motivantes em equipe, produzindo coisas para a vida real, participando da cultura Maker. Tudo isso tem que ser parte do dia. A Summit é uma das escolas que conheço que melhor faz isso.

Como alguém que já trabalhou com governos, fundações, investidores e empreendores, como você vê a entrada de tantos stakeholders em educação? Existe mais gente hoje interessada no tema?  
Eu comecei meu fundo há cinco anos. Nós éramos um dos poucos voltados para a educação. Agora há alguns fundos e todas as empresas de venture capital têm investidores focados em educação. A maior parte das fundações está investindo em inovação. O mais legal dos últimos três anos é a inundação de talentos na área. A garotada mais inteligente das melhores universidades está criando startups de educação. Educação tem atraído investimento e talentos.

Quais são as startups que têm chamado a sua atenção?  
Uma das empresas que a gente apoia é a Edmodo, uma plataforma de aprendizagem social. É um ótimo exemplo de como aprender tem se tornado algo muito mais social, centrado no estudante. Uma das coisas que exploramos na Edmodo e em outros sites é essa comunidade de aprendizagem profissional, que permite aos professores se conectarem uns com os outros, aprender e compartilhar. Existem centenas de comunidades muito grandes dentro do Edmodo, mas existem também empresas como Mastery Connect, que é um espaço em que os professores compartilham avaliações. A Learn Zillion é outra empresa em que os professores trocam videoaulas entre si. Isso acabou se tornando uma estratégia muito interessante de desenvolvimento profissional. A Bloomboard outra de nossas empresas, é um sistema gratuito de observação e avaliação.

Ao falar de ensino adaptativo, estou muito empolgado com o que tem sido feito pela  I Ready, um sistema para o ensino fundamental que tem leitura e matemática. A Dream Box   é outra plataforma de ensino adaptativo de matemática muito boa.

Dentre tudo isso que tem aparecido, o que deve estar presente na educação neste ano?  
Veremos uma extensão dessas coisas sobre as quais estamos falando, já que há mais investimentos sendo feitos por investidores e fundações. Uma coisa que já vimos acontecer em 2013, mas veremos ainda mais em 2014, é um alargamento das metas, que não vão ficar apenas para leitura e matemática. Isso vem da compreesão de que o sucesso na vida requer perseverança e habilidades sociais, como a de lidar com o outro. Vamos ver mais escolas e governos prestando atenção nessas habilidades.

Vamos ver também  uma explosão no conteúdo aberto, que será usado por mais escolas. Também teremos uma continuação do uso dos tablets, apesar de eu achar que esse aumento vai diminuir um pouco por causa dos Chrome Books.  Vamos ver ainda mais escolas apostando no  BYOD . Até 2013, a maior parte das escolas proibia o uso de telefones celulares. Até o fim do ano, acho que a maioria vai permitir que os alunos levem os telefones, mas deve estabelecer uma política sobre como, onde e por que usar. Além disso, o aprendizado on-line vai continuar a crescer. Ele aumentou cerca de 50% nos EUA e acho que isso vai continuar.

O desenvolvimento das habilidades socioemocionais é algo que nos preocupa. Você conhece ferramentas capazes de estimulá-las e, depois, avaliá-las?
Há dez dias eu escrevi sobre outras habilidades importantes e detalhei algumas ferramentas nessa área. Estou escrevendo um guia para os sistemas da nova geração. Ele vai trazer estratégias para acompanhar o desempenho acadêmico, mas também estamos olhando para as inteligências socioemocionais, como podemos estimulá-las e avaliar sua evolução. Na Summit, eles chamam isso de “hábitos de sucesso”. Provavelmente eles são o melhor exemplo de uma rede que se comprometeu em dar feedback sobre essas habilidades importantes.

 Fonte: Portal Porvir – Patrícia Gomes