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Música ensina idioma e conecta conhecimentos de diversas áreas

É possível ir além de momentos de descontração isolados e apresentar mais do que a gramática quando a música entra como recurso para aprender uma nova língua

Música diverte, descontrai, emociona. Tudo isso já faz dela um excelente instrumento para o aprendizado de um segundo idioma, quando o estudante precisa ter uma escuta atenta para pronunciar as palavras corretamente. A música, contudo, pode contribuir ainda mais dentro de sala de aula – e não só na hora de uma pausa das atividades tradicionais. Com bom planejamento e uma dose de criatividade, ela amplia o repertório cultural, desenvolve o pensamento crítico e ainda associa conhecimentos de diferentes campos dos saberes.

Professora de inglês há 18 anos, Arabelle Calciolari, que conquistou o Prêmio Educador Nota 10 em 2019, sempre usou músicas infantis e populares nas suas aulas, mas foi só mais recentemente que sentiu que precisava ampliar o significado do que apresentava às crianças. “Tive uma fase que fiquei me questionando: qual é a minha importância como professora, qual é o papel da língua inglesa na vida dessas crianças? Se eu não estivesse aqui, faria falta?”, lembra-se ela, que há 11 anos trabalha na rede municipal de Jundiaí, interior de São Paulo, com alunos do ensino fundamental 1.

Foi assim que começou a fazer projetos culturais. Primeiro com literatura, depois com música. Arabelle elaborou uma sequência didática para o 3º ano em que adota a música “True Colors” para falar sobre o lápis cor de pele. Depois, trabalha com músicas dos Beatles. “Essas sequências e os projetos têm um objetivo de trabalhar uma questão social, histórica ou cultural. Tenho essa visão de que meu papel é muito maior do que só ensinar a língua”, afirma.

As músicas não entram sozinhas nas aulas de Arabelle. O livro “Cor de Coraline” também amplia as possibilidades de reflexão sobre a cor da pele das pessoas. As músicas dos Beatles vêm acompanhadas de documentários, trechos de filmes e livros que contam um pouco do contexto da época, da segregação nos Estados Unidos, das histórias de Rosa Parks e Martin Luther King. Dessa forma, o inglês contribui para o desenvolvimento pleno do aluno.

“Já fiz um projeto de hip hop junto com a professora de educação física. Os que escolheram o estilo e eu, como não conhecia muito, fui pesquisar. Estudamos a história, os principais nomes; convidamos dançarinos e grafiteiros para a escola”, relembra.

Além de integrar várias áreas do conhecimento, as músicas em inglês podem apoiar um processo de integração da escola inteira. Durante a pandemia, o Sistema de Ensino Energia, de Florianópolis (SC), passou a organizar shows de talentos mensais, ao vivo no YouTube. Todos alunos e famílias eram convidados a participar se apresentando ou apenas assistindo. De forma natural, o inglês começou a se destacar.

“A gente percebeu, de uma maneira muito forte, que as crianças estavam tocando e cantando músicas em inglês. Aí decidimos aliar a noite de talentos com o foco no inglês”, conta Karine da Luz, coordenadora da educação infantil e ensino fundamental 1.

Aproveitando o interesse e o conhecimento dos próprios estudantes, em outubro o colégio fez em outubro um evento temático sobre Halloween. “Foi um momento cultural que inclui desde a educação infantil. Cada turma fez algo para apresentar. Uma vez vídeos de culinária macabra, outra fez uma recriação do trailer de ‘Thriller’, do Michael Jackson”, cita Karine. Dessa forma, a música foi inserida dentro de uma lógica cultural, multidisciplinar e agregadora.

Para que a música seja uma forma descontraída de aprendizado, mas que ela não fique limitada à diversão, Jucymar Boccazio, mentora do Edify, diz que a palavra-chave é planejamento. “A música é uma ferramenta pedagógica importante para potencializar e promover aprendizados. Mas não se for uma ação isolada. É preciso haver intencionalidade – saber o que eu quero desenvolver nos meus alunos – assim como planejamento”, afirma.

Jucymar ressalta ainda que a música proporciona tanto atividades individuais quanto coletivas. No primeiro caso, elas fortalecem a compreensão auditiva e trabalham a pronúncia. As atividades em grupo podem incluir pesquisa, dramatização e transformação da obra. “Elas promovem uma série de habilidades socioemocionais, como saber ouvir, respeitar as diferenças, ter gosto por aprender”, diz.

Ainda que seja uma estratégia lúdica, o trabalho com música deve sempre ser acompanhado e avaliado. “Aqui, a autoavaliação também é muito relevante. Se conhece os objetivos, o aluno ganha o senso de progresso, percebe que já estende palavras, o sentido delas e aplica expressões idiomáticas em outros contextos. Tudo isso faz com que conquiste a autoconfiança”, explica Jucymar.

* A professora Arabelle Calciolari é convidada do próximo evento Edify hub – Aprendizagem de línguas nas escolas. Inscreva-se

Parceria Porvir com EDIFY

Fonte: Portal Porvir - Luciana Alvarez 

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