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No ensino médio, acolher também significa dar ao aluno a chance de se expressar

No momento em que for seguro voltar às aulas presenciais, incentivo à expressão e curiosidade dos estudantes pode ajudar a lidar com dificuldades que apareceram durante a quarentena

A escola terá de ser um local onde o estudante de ensino médio possa investir em seu projeto de vida no retorno às aulas presenciais, quando houver segurança para isso. Mais do que buscar a recuperação de conteúdo, redes estaduais de ensino devem permitir que os jovens se expressem, seja de forma oral, escrita ou por linguagens artísticas. Essa será a melhor forma de ajudá-los a lidar com questões como morte, doença de pessoas queridas, violência, falta de trabalho e renda e incerteza sobre o futuro na retomada das aulas após meses de fechamento das escolas devido à pandemia do coronavírus (COVID-19).

“Tematizar a doença, a morte, a violência ou as possibilidades de projetos pessoais deveria ser uma constante da atividade escolar. E não é exatamente isso o que tem caracterizado o trabalho docente, inclusive porque o magistério também está posto em uma organização burocrática que não favorece a sua própria expressão quanto aspectos da vida como esses”, afirma Elie Ghanem, professor da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).

A implantação de um currículo humanitário pode ser um caminho a ser seguido no retorno às escolas. “Seria o resultado de uma necessária inversão da lógica mais comum da educação escolar. Segundo essa lógica, a escola deve ensinar saberes previamente reunidos e organizados em campos disciplinares. Faz isso independentemente da disposição de cada estudante para lidar com esses saberes e de forma dissociada dos assuntos que já assaltam a curiosidade individual. É essa curiosidade que precisa estar no início e muitas vezes no centro das atividades educacionais, para repensá-la, compará-la com a dos pares e expandi-la ao máximo. Nesse movimento é que se recorreria aos saberes já sistematizados pelas disciplinas escolares”, explica Elie.

Este tipo de currículo leva em consideração a formação do ser humano em sua integralidade, de acordo com Danila Di Pietro Zambianco, mestre em Educação pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), especialista em competências socioemocionais. “Não somos apenas alunos nas escolas, somos pessoas. Pessoas que sabem pensar racionalmente, para resolver alguma questão de química, por exemplo, mas também pessoas que sofrem diante da ruptura dos seus sonhos. Por isso, não desligamos nossa humanidade na hora de aprender, de estar na escola. Ela é intrínseca à nossa existência e à nossa convivência com o outro.”

Danila faz parte do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral), que integra pesquisadores de diversas universidades e contribuiu para a preparação de um material do Observatório da Educação do Instituto Unibanco sobre os efeitos psicológicos da pandemia. Confira o vídeo de apresentação, que traz explicações de pesquisadores.




O currículo humanitário, de acordo com Danila, considera as várias dimensões do desenvolvimento do ser humano – intelectual, afetiva, moral, artística, corporal e de integração com o meio ambiente. “Para implantá-lo, deve-se considerar todas as dimensões no mesmo peso e medida, em articulação com os componentes curriculares. Precisa ter ações explícitas, planejadas, da mesma maneira que se planeja matemática, português, geografia, também ações sistemáticas avaliadas com frequência pela escola, para que ela possa perceber qual é a contribuição que está fazendo para a sociedade. Essa é uma tarefa da escola, se ela está ajudando a formar seres humanos. As ações devem ter espaço e tempo na grade horária desses alunos, permeada por uma robusta formação de professores, para que essa formação humana seja viva e não apenas um documento de gaveta.”

Fonte: Portal Porvir - Fernanda Nogueira 

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