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Novos hábitos de estudo na quarentena reaproximam estudantes de computadores

Maior tempo de estudo conectado levou famílias a investirem em máquinas de mesa ou notebooks, que apresentam vantagem no tamanho da tela, desempenho e usabilidade em relação a celulares e tablets

Vídeos, formulários, conteúdos em slides, áudios e aulas ao vivo. Essas são apenas algumas das ferramentas que estão sendo utilizadas para dar continuidade à educação durante o isolamento social devido à pandemia do novo coronavírus. Se antes a maioria das tarefas extraclasse era possível de ser feita pelo caderno ou celular, agora, com maior volume de conteúdos online, muitas famílias têm buscado alternativas para as crianças continuarem estudando.


Para entender se os computadores de mesa (os chamados desktops) ou notebooks realmente apresentam alguma vantagem em relação às telas menores (dos dispositivos móveis, mais familiares às crianças), o Porvir conversou com especialistas da área de tecnologia educacional. Não se trata só de formato de tecnologia, mas entender como os novos hábitos de estudo, que neste momento exigem produção constante, podem ser facilitados por teclado e mouse físicos, além maiores opções de conectividade. Confira a seguir alguns fatores que devem ser considerados por aqueles que desejam comprar um computador agora.


Adaptação ou readaptação ao uso do computador


Jean Tomceac, coordenador de educação do CIEB (Centro de Inovação para Educação Brasileira), conta que, apesar de crianças terem habilidades no uso das telas, o momento exige paciência no sentido de considerar o tempo de adaptação ao trabalho pedagógico com ferramentas digitais. Além disso, o coordenador comenta que o trabalho de adaptação ao computador, realizado por volta do segundo ano do ensino fundamental, é desafiador, uma vez que, para as crianças, não é fácil navegar por diferentes tecnologias.


“Em algumas escolas que prestam atenção ao trabalho com tecnologia, especialmente ao letramento digital, há um movimento de aproximação com computadores. Se considerarmos uma aula por semana, ficamos por volta de um a dois meses mostrando para a criança que é a mesma tecnologia, mas a forma física de se relacionar é diferente”, afirma Jean.


Além disso, é necessário considerar que, nos aplicativos para dispositivos móveis, o conteúdo é pensado para atrair e engajar, o que não acontece obrigatoriamente com os conteúdos no computador. “Em um aplicativo, tem todo o trabalho do designer de experiências de pensar nas telas a partir de uma lógica de engajamento e gamificação. Isso significa que um aplicativo é totalmente pensado para experiência do usuário de olhar e tocar a tela de maneira rápida. No computador, nem todos os sites e conteúdos têm essa lógica.”


Área de estudos


A mudança na maneira de estudar em casa também reforça a necessidade de espaços específicos para dedicação às aulas e às explicações do professor.


Para Helinton Luiz Marques, gerente de produto da área de tecnologia educacional da Positivo, essa escolha pode determinar se é melhor ter um computador de mesa, um notebook, ou até mesmo um “tudo em um”’, modelo que integra o monitor e o computador, economizando espaço na escrivaninha.


Também é preciso considerar se o usuário dessa máquina será apenas o aluno ou se o uso será compartilhado com os pais ou irmãos, o que demanda uma movimentação do computador e, possivelmente, a configuração de perfis diferentes para cada um.


Uma vez identificado o melhor lugar para fazer as lições, vale pensar também na ergonomia da cadeira onde o aluno assistirá as aulas, assim como do teclado e do mouse. “Geralmente, quando os pais compram um mouse, pensam para o tamanho da própria mão. Mas a da criança é menor e ela vai usar aquele dispositivo durante algumas horas, o que não está acostumada”, explica Helinton.


Tamanho da tela


Helinton reforça que oferecer conteúdos para telas menores, seja de celulares ou tablets, requer um trabalho extenso de planejamento do conteúdo. Mas, ao mesmo tempo, é preciso considerar que não houve tempo suficiente para que escolas pudessem se preparar diante da suspensão de aulas e da migração dos encontros presenciais para o mundo online.


“Nesse contexto de mudança muito rápida, as escolas adotaram plataformas e os professores foram colocados em uma situação de ter que criar conteúdos. Como estamos todos aprendendo com tudo isso, os docentes não tiveram tempo de produzir conteúdos para configurações menores, e acabaram usando ferramentas mais familiares, como o PowerPoint, com uma mentalidade de tela maior”, explica.


Para Jean, é preciso considerar também que, diante da situação emergencial, em muitos casos os conteúdos curados pelas escolas para esse momento de estudos em casa não são responsivos, isto é, não são preparados para funcionar da mesma forma em dispositivos móveis e em sistemas operacionais para computadores.


Engajamento dos estudantes


Para além do maior conforto para ler e produzir textos grandes, o tamanho da tela também está relacionado à forma com que os estudantes interagem com os conteúdos. Segundo Helinton, se antes isso acontecia de maneira mais passiva, hoje, com a necessidade de assistir a aulas e entregar exercícios diariamente, os estudantes estão em contato com a tecnologia por mais tempo e precisam acessar plataformas, entender os conteúdos e realizar produções de diferentes naturezas.


“Para momentos pontuais, os alunos até conseguem utilizar uma tela menor. Mas, a partir do momento em que começaram a ficar expostos à tela durante algumas horas para consumir esse conteúdo, escrever textos e entregar atividades, percebemos que passaram a procurar o computador como uma alternativa”, defende o executivo, que vê também como vantagem dos computadores o maior poder de processamento para tarefas complexas, como edição de fotos e vídeo.


Jean, por sua vez, afirma que ter à disposição telas maiores também é um facilitador quando o assunto é a realização de várias tarefas ao mesmo tempo. Dividir a tela em várias janelas pode permitir a interação com colegas em momentos de trabalho colaborativo, por exemplo. “Se estou em um computador, consigo entrar em um editor de texto, planilha ou software de apresentação, ao mesmo tempo em que ligo o vídeo para falar com meus colegas e digito no teclado físico. Fica muito difícil fazer tudo isso em uma tela pequena e mexer no teclado virtual. Para uma criança, eu diria que é impossível, porque ela não tem esse desenvolvimento cognitivo e motor, enquanto no computador isso seria possível”, explica.


Tecnologia no processo de ensino-aprendizagem


Apesar dos inúmeros desafios que o momento impõe – que vão desde o setor da saúde, passando pela educação e até nas relações interpessoais –, Helinton reforça que as vivências desse momento serão convertidas em aprendizado quando a crise amenizar. “Tenho certeza que, quando passar tudo isso, a visão que temos para esses momentos de ensino a distância será bem diferente. A tecnologia vai realmente passar a fazer parte do processo de uma forma mais ativa e menos passiva, quando as crianças apenas recebiam conteúdos.”


Fonte: Portal Porvir - Maria Victória Oliveira

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