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Professores pedem apoio técnico e psicológico durante a quarentena

Pesquisa do Instituto Península aponta que 88% dos professores nunca tinha dado aula à distância de forma remota e 83,4% não se sentem preparados

É enorme o tamanho do desafio que o fechamento das escolas e a suspensão das aulas impôs às escolas e, principalmente, aos professores, responsáveis por fazer a interlocução com os estudantes durante a vigência do distanciamento social. Para entender o que isso significa, basta dizer que, antes da paralisação das aulas presenciais, 88% dos professores nunca tinha dado algum tipo de aula remota. Essa é uma das descobertas da segunda onda da pesquisa Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do Coronavírus no Brasil.

Enquanto a primeira onda teve como objetivo ouvir como professores estavam se sentindo no estágio inicial da quarentena, ou seja, até duas semanas após a suspensão das aulas presenciais, o segundo momento buscou compreender qual é a situação dos docentes considerando um estágio intermediário, após seis semanas de isolamento.

As descobertas da pesquisa foram divididas em quatro blocos: como os professores estão se sentindo, o que pode ajudar a explicar esses sentimentos, como estão lidando com o contexto atual e quais mudanças ocorreram desde o início da pandemia. No bloco um, por exemplo, é possível notar que predominam sentimentos negativos entre professores: 67% estão se sentindo ansiosos, 38% cansados, 36% entediados, 35% sobrecarregados, 34% estressados e 27% frustrados. Apenas 9% se dizem alegres e 23% calmos.

Heloísa Morel, diretora executiva do Instituto Península, ressalta o aumento no nível de ansiedade dos professores, sentimento que já existe na rotina de aulas presenciais, mas que foi exacerbado pelo contexto da COVID-19. “Chegar a conclusão de que quase 90% dos professores jamais tiveram uma experiência de ensino remoto nos possibilita perceber a dimensão do problema porque, na verdade, está todo mundo começando do zero. Ter 10 ou 12% da população com alguma experiência prévia não é suficiente para dar conta dos desafios de um país de dimensões continentais como o Brasil”, explica.

A relação entre apoio emocional e técnico 

Um dos grandes achados que pode ser usado para explicar o estado de espírito dos professores citado acima, é que 83,4% dos respondentes afirmaram não se sentir nada ou pouco preparados para ensinar de forma remota. Não à toa, a formação para ensinar a distância é a primeira demanda de apoio que professores gostariam de receber no momento, seguido de apoio pedagógico para auxiliar os alunos. “A pesquisa mostrou que os professores não querem instruções referente às disciplinas, e sim ajuda sobre como dar aula à distância”, reforça Heloísa.

Essa falta de suporte prático e técnico pode desencadear os sentimentos de ansiedade e angústia descritos acima, o que, por sua vez, afeta o bem-estar e a saúde mental dos professores. 75% dos respondentes afirma não ter recebido qualquer tipo de suporte emocional durante esse período ao passo que, nas três redes analisadas – municipal, estadual e pública –, a preocupação com a saúde mental é superior a 80%. É por isso que, em terceiro lugar, os professores afirmam que gostariam de receber apoio psicológico/emocional.

O que falta para investir no apoio psicológico aos docentes? 

Heloísa explica que, em conversas com secretários de educação pré-pandemia, a maioria deles afirmava considerar a importância do auxílio psicológico, mas que poucos conseguiam encaixar a pauta na agenda, alegando falta de tempo. “Eu acredito que, com a quantidade de regras e restrições de orçamentos com as quais os gestores precisam lidar, eles priorizam a maior dor. O que eu julgo mais difícil na posição de gestores de educação é conciliar múltiplas dificuldades e trabalhar com o ‘E’ e não com o ‘OU’. Não é ‘ou eu dou conteúdo ou cuido das socioemocionais’, e sim as duas coisas. Por isso não é uma função simples. Precisamos começar a discutir com os secretários maneiras de fazer esse grande quebra-cabeça, e não uma escolha em detrimento de outra.”

Segundo a diretora, trata-se de um movimento de olhar o professor como um profissional que tem o corpo como instrumento de trabalho e, por isso, as formações devem considerar esse fato. “O professor não usa só o cérebro para dar aula, ele tem um contexto inteiro. Por isso, o desenvolvimento desse profissional precisa ser olhado de maneira ampla, como um ser integral, que conta com múltiplas ferramentas como parte do processo de educar. Eu acredito que estamos um pouco mais sensíveis para fazer a abertura de espectro nesse momento, e minha esperança é que isso continue pós-pandemia.”

Para a representante do Península, um consenso entre quem acredita que o bem-estar do professor compõe seu profissionalismo é entender que, dentro da sala de aula, o docente não lida apenas com o conteúdo e disciplinas, mas também com questões de violência, abuso e saúde mental dos estudantes, por exemplo.

Educação infantil 

Se a maioria dos respondentes da pesquisa afirma não se sentir preparada para o ensino virtual, o percentual é ainda maior entre docentes da educação infantil. Segundo a pesquisa, 38,1% se identificam como nada preparados e 50,9% como pouco preparados. “Eu acredito que existe um senso comum de que, na fase dos pequenininhos, não estão sendo desenvolvidas apenas habilidades de ler e escrever, mas também outras questões onde o professor pode apoiar muito a descoberta das crianças”, pontua Heloísa.

Para Giselle Martins, respondente da pesquisa e professora da educação infantil de uma escola da rede municipal de Belém (PA), o principal sentimento no presente é de preocupação com o futuro das aulas, não só na questão do aprendizado, mas também nas dinâmicas envolvendo a saúde dos estudantes e da própria professora. “Esse ano eu tive cerca de um mês e meio de aula, e fico pensando como recuperar esse ‘tempo perdido’ quando voltarmos. Eu não tenho apoio de auxiliares e preciso lidar com 27 alunos de manhã e 27 à tarde. Como vou manter o distanciamento de um metro e meio entre eles? Fora os cuidados como estar todo mundo de máscara, lavar as mãos e passar álcool em gel”, explica.

Segundo a docente, ao mesmo tempo que todo o tipo de formação continuada para professores foi suspensa e não substituídas por processos online, nenhum tipo de contato foi realizado para acompanhar ou dar suporte ao bem-estar dos professores. “Não ter atraso nos salários é algo que nos dá certa tranquilidade. Porém, não tivemos a questão do apoio, da preocupação de nos procurar e orientar, dizendo ‘não se preocupem, vamos voltar às aulas mas faremos de tal forma’. Não houve um movimento de nos deixar tranquilos para voltar.”

Preocupação com o bem-estar dos alunos 

O bem-estar dos alunos também é um ponto que soma-se ao conjunto de questões que preocupam os professores atualmente. Maria Cristina de Jesus Novaes, professora orientadora de educação digital de uma escola da Prefeitura de São Paulo, tomou a iniciativa de realizar um diagnóstico com seus 398 alunos, que deveriam responder algumas perguntas referentes ao acesso à internet em suas casas. Dos quase 400, ela recebeu retorno de 130.

“Muitas famílias afirmam que não dá para desenvolver o conteúdo a distância por questões de equipamento e internet. Por exemplo, se o pai ou a mãe tem um aparelho celular, precisa dividir com cinco filhos, ou o plano de internet não dá conta de acessar as plataformas, ou ele não consegue entender o conteúdo para explicar para as crianças. É muito frustrante e angustiante”, relata.

Segundo a professora, a falta de contato e as poucas informações que o corpo docente recebe gera um sentimento de frustração. Atualmente, Maria Cristina se preocupa com o desemprego, que atingiu algumas famílias de alunos, a alimentação que os estudantes faziam quando frequentavam a escola e o retorno às aulas, momento em que os educadores precisarão lidar com questões relacionadas ao conteúdo, que muitos alunos não estão conseguindo desenvolver, e também desafios envolvendo a parte emocional.

Para ela, a situação de defasagem dos alunos em relação ao conteúdo que já acontece quando as aulas estão transcorrendo de forma normal, irá aumentar com o retorno da quarentena. “À defasagem pedagógica, soma-se a questão emocional, a material e a perda de um ente querido que alguns estão passando. É um emaranhado de angústia e frustração”.

Sem nenhum tipo de suporte ou rede de apoio emocional aos professores por parte da prefeitura, Maria Cristina afirma que, além de um tipo de respaldo que orientasse os professores no momento atual, ela gostaria de orientações sobre o reencontro com os alunos. “Precisamos de preparo emocional e técnico para poder retomar as atividades com os alunos com diversos problemas.”

O que ainda pode ser feito?  

Por mais que Estados já tenham anunciado planos e as atenções estejam voltadas à retomada de atividades não-essenciais e de reabertura das aulas, ainda é tempo de pensar em como planejar também o apoio aos professores. Para Heloísa, esse foi apenas o início de uma jornada, e gestores precisam pensar no legado desta experiência.

A diretora exemplifica que, no caso da França, escolas onde as aulas foram retomadas que apresentaram casos de coronavírus, suspenderam novamente a presença dos alunos. “Existe uma chance enorme do processo de isolamento voltar a acontecer até termos uma vacina. Portanto, acho que a formação é muito bem-vinda, pois se tivermos que voltar para o isolamento, certamente na próxima onda os professores estarão mais preparados.”

Próximos passos 

Segundo Heloísa, já é possível observar um movimento de formação de consenso em torno da necessidade de realizar processos de acolhimento tanto de alunos como de professores no momento volta às aulas. “Todo mundo sabe que muitos alunos e professores podem voltar à escola com desestabilização emocional, o que pode prejudicar a continuidade do processo de aprendizagem ao longo do ano.”

Por isso, o Instituto Península planeja realizar uma terceira fase da pesquisa ainda sobre aulas remotas durante o distanciamento social, por considerar que muitos Estados preveem a retomada das aulas no final de julho ou início de agosto. Uma quarta fase do estudo vai para avaliar os sentimentos e percepções no momento de retorno. “Não acreditamos que o estresse será menor na retomada, mas sim que haverá de 30 a 60 dias nos quais professores, coordenadores, diretores e secretários terão uma demanda significativa.”

Parceira Porvir com Instituto Península 

Fonte: Portal Porvir - Maria Victória Oliveira

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