Doença crônica e sala de aula: lições sobre limites e resiliência
Para professores que convivem com doenças crônicas ou dor, construir uma rede de apoio pode manter os estudantes no caminho certo
Por anos, eu acreditei que estar presente, a todo custo, era o que tornava alguém um bom professor. Mesmo quando a dor causada pela doença de Crohn (doença crônica que acomete o trato gastrointestinal) se tornava quase insuportável, eu seguia adiante. Pulava o almoço para evitar gatilhos de sintomas, ficava até tarde para terminar o planejamento e me convencia de que exaustão era sinônimo de dedicação.
Até que chegou o dia em que meu corpo me convenceu do contrário.
Depois de semanas fingindo que estava bem, acabei no hospital com uma complicação grave que me afastou da sala de aula por tempo indeterminado. Meu primeiro pensamento não foi sobre minha saúde, foi sobre meus alunos. Quem iria ajudá-los? Como eles iriam se virar sem mim? A “culpa docente” bateu antes mesmo de a medicação para dor fazer efeito.
O inesperado nos meus dias
Mas algo inesperado aconteceu enquanto eu estava no hospital. Algo que redefiniu meu entendimento de força muito mais do que a própria doença.
Meus alunos escreveram cartas. Meus colegas assumiram minha turma sem hesitar. Uma vaquinha foi organizada para mim e para meu marido. Refeições começaram a chegar à nossa porta. Colegas me visitaram, acompanharam meu marido e me asseguraram que meu único trabalho naquele momento era descansar. O mundo não desmoronou porque eu parei. Pelo contrário, a comunidade à qual eu tinha dedicado tanto cuidado retribuiu.
Conviver e ensinar com uma doença crônica me forçou a redefinir força, presença e sustentabilidade. E, embora os detalhes da minha história sejam pessoais, as lições servem para todos nós, porque muitos professores lidam com doenças invisíveis, dores crônicas ou esgotamento contínuo, muitas vezes em silêncio.
A seguir, as práticas e mentalidade que me ajudaram e que espero que apoiem tanto professores quanto os colegas que cuidam deles.
Construa uma rede de apoio antes de precisar dela
As doenças crônicas são realmente imprevisíveis. Antes da minha internação, eu quase nunca pedia ajuda e carregava tudo sozinha: planos de aula, correções, adaptações curriculares, reuniões e comunicação com famílias. Eu não queria incomodar ninguém.
Mas, quando fui hospitalizada, meus colegas agiram imediatamente. Eles organizaram substituições, apoiaram meus alunos academicamente e emocionalmente e ajudaram meu marido a lidar com tudo o que estava acontecendo em casa. Aprendi que uma rede de apoio não é um luxo, mas uma necessidade.
Aqui estão algumas dicas para professores agirem de forma preventiva:
• Compartilhe planos ou materiais digitais com um colega de confiança.
• Mantenha uma pasta de emergência para substitutos, com rotinas previsíveis.
• Fale antecipadamente com sua gestão sobre as necessidades de saúde que exigem acompanhamento contínuo.
Comunique-se de forma clara e antecipada
Por anos, escondi meus sintomas porque tinha medo de ser vista como alguém pouco confiável. Mas o silêncio tornou tudo mais difícil. Quando finalmente fui honesta sobre minha saúde, aprendi que sinceridade constrói confiança e não pena ou vergonha.
Essas são algumas formas eficazes que encontrei de comunicar necessidades:
• Informe à gestão como crises ou sintomas podem afetar seu trabalho.
• Diga à sua equipe como contatá-lo ou ajudá-lo caso você precise se ausentar de repente.
• Deixe um plano simples para substitutos, reduzindo a sobrecarga dos colegas.
• Estabeleça limites durante a recuperação e mantenha-os sem pedir desculpas.
Transparência ajuda a todos: estudantes, colegas e você.
Descanse antes de desabar
Antes, eu acreditava que descanso era algo que se “ganhava” depois de superar tudo. A doença crônica me ensinou que descansar precisa vir antes da crise. Faltar alguns dias pode evitar perder semanas ou meses.
Alguns modos de repensar o descanso:
• Descanso é uma ferramenta de sustentabilidade.
• Ouvir seu corpo é um ato de profissionalismo, não de fraqueza.
• Seus alunos ganham mais com um professor que coloca limites do que com alguém que ultrapassa o próprio limite.
• Ensinamos estudantes a reconhecer e responder às necessidades de saúde física e mental. Os professores precisam fazer isso também.
Crie sistemas de sala de aula flexíveis e sustentáveis
As melhores salas de aula não são aquelas que dependem da resistência física do professor, mas sim as que se baseiam em rotinas previsíveis e na autonomia dos estudantes.
Veja como criar sistemas que funcionem quando você precisar se afastar:
• Mantenha rotinas consistentes para que os alunos se sintam seguros, mesmo com um substituto.
• Use agendas e slides que qualquer pessoa possa seguir.
• Crie versões digitais de materiais para que colegas possam dar continuidade facilmente.
• Você não está planejando para o desastre, mas para a resiliência.
Permita que os estudantes vejam sua humanidade
Ainda não voltei ao trabalho desde minha internação. Minha saúde piorou antes que eu pudesse retornar e ainda estou aguardando cirurgia. Durante esse tempo, meus alunos souberam que eu estava doente e demonstraram uma empatia que me surpreendeu.
Eles escreveram cartas, fizeram cartões, enviaram mensagens cheias de preocupação, carinho e incentivo. Essas são lições que os alunos aprendem, mesmo sem as ensinarmos formalmente.
Ao ser transparente sobre minha saúde, mostrei vulnerabilidade, autodefesa e resiliência como modelos. Meus alunos aprenderam que adultos também enfrentam desafios difíceis e que pedir ajuda é uma forma de força. Humanidade não é um desvio do ensino.
Apoio prático para colegas saudáveis
Professores saudáveis muitas vezes querem ajudar, mas não sabem como. Meus colegas mostraram o que significa comunidade de verdade ao apoiar não apenas a mim, mas também meu marido, quando eu não podia estar em casa ou quando ele precisava cuidar de mim em tempo integral.
Aqui estão formas de aliviar a carga de um professor em crise:
• Envie mensagens periódicas (pequenas checagens fazem mais diferença do que parece).
• Organize um esquema de refeições ou entregas de comida.
• Visite a pessoa, se ela se sentir confortável, ainda que rapidamente.
• Ofereça apoio ao parceiro ou cuidador — eles também carregam um peso enorme.
• Lembre o professor de que ele é valorizado além da presença física na escola.
Redes de apoio ajudam professores a sobreviver aos momentos mais difíceis de suas vidas.
Descanso é força, não fraqueza
Sigo lutando contra a culpa por estar longe do trabalho. Ainda sinto vontade de estar com meus alunos. Continuo choro de frustração e pela sensação de estar decepcionando pessoas. Mas a doença me ensinou que descansar não é o oposto de ser forte.
Ensinar com uma doença crônica exige limites, comunidade e coragem. Pede que a gente redefina nosso valor, não pela capacidade de resistir, mas pelo cuidado que dedicamos a nós mesmos. Porque, às vezes, o ato mais corajoso que um professor pode realizar é descansar, e permitir que outros o carreguem quando necessário.
*Publicado originalmente em Edutopia e traduzido mediante autorização © Edutopia.org; George Lucas Educational Foundation
Fonte: Portal Porvir - Amanda Perra Oviedo
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