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Gestores escolares também precisam de motivação. Como preservá-la na rotina?

Criar redes de apoio com outros diretores e cultivar o hábito de refletir sobre o dia a dia são passos essenciais para que os líderes escolares consigam não apenas sobreviver, mas prosperar na função

Descobri muito rapidamente, assim que assumi a gestão escolar, que a liderança é um lugar solitário. E isso acontece, em grande parte, pelo nível de dedicação que o cargo exige. É uma atenção constante para melhorar os resultados da escola por meio de formação continuada e acompanhamento de perto da equipe, além do trabalho diário — que consome um tempo enorme — com a gestão dos estudantes e a melhoria da cultura escolar. Isso sem falar nos problemas de manutenção do prédio, nas limitações do orçamento e nas demandas de recursos humanos que surgem a cada minuto.

O resultado? Muitos gestores cuidam do bem-estar de todo mundo, muitas vezes às custas do próprio equilíbrio. Cada passo que um líder dá envia sinais para a equipe, e carregar essa responsabilidade gera uma pressão imensa.

Ao longo dos anos, percebi que é possível manter a equipe motivada e, ao mesmo tempo, sustentar a sua própria energia. Mas não se engane: manter a motivação não tem a ver com ser perfeito ou fingir uma felicidade que não existe. Na verdade, trata-se de cultivar um espaço mental sustentado pela autoconfiança e pela clareza, para que as decisões sejam tomadas com mais equilíbrio e sensatez.

Tomar decisões com segurança (apesar das dúvidas)

Quem está na direção ou na coordenação toma inúmeras decisões por dia, algumas simples, outras complexas. E todo gestor enfrenta o fantasma da dúvida, se perguntando: “Será que fiz a escolha certa? Teria outro caminho mais vantajoso? Fui claro na minha comunicação e nas minhas expectativas?”

Essas são apenas algumas das perguntas que passam pela minha cabeça no caminho de volta para casa, no fim do expediente. Depois de passar por esse filtro — que considero um questionamento saudável —, geralmente percebo que as decisões tomadas foram, dentro do que eu conhecia, o melhor para toda a comunidade escolar, independentemente das opiniões alheias.

A reflexão é parte essencial do meu processo de decisão. Como gestor, parto de três perguntas básicas:

• Eu reuni todos os fatos relevantes?
• Avaliei todos os desdobramentos possíveis?
• Cheguei à melhor conclusão pensando no bem coletivo da escola?

Repassar esse roteiro mental me permite ficar em paz no fim do dia e dormir bem à noite, por mais difícil que tenha sido a decisão.

O poder de não estar sozinho

Uma das melhores decisões que tomei na carreira foi começar a participar de redes de apoio profissional. Quando eu era um gestor iniciante, questionava a validade desses grupos; achava que eram perda de tempo, panelinhas ou discussões superficiais. Quebrei a cara: descobri que a comunidade certa acolhe, valida e ensina.

Lembro-me de ir a um jantar que reuniu gestores da região, uma semana antes do recesso escolar. Quando as pessoas começaram a se levantar para se apresentar, o desabafo era geral: que semana difícil e exaustiva tinha sido aquela. Como a minha semana também estava terrível, me deu um alívio enorme saber que eu não estava sozinho nos meus desafios. Ao longo da noite, trocamos ideias e ajudamos uns aos outros a encontrar saídas para os problemas cotidianos. Ali ficou claro que liderar isolado em uma bolha é insustentável e mentalmente exaustivo.

A energia daquele grupo me renovou e me deu fôlego para atravessar o recesso e o restante do ano letivo. Estar perto de quem fala a mesma língua mudou a forma como eu encarava as minhas próprias dificuldades, me deixando mais aberto para os desafios. Hoje, com bastante estrada na gestão, tenho orgulho de fazer parte de dois grupos de mentoria e apoio mútuo que me dão a perspectiva necessária para não deixar a peteca cair.

Cada pequena vitória conta

Tenha um diário de conquistas: já passei por dias tão pesados que cheguei a questionar se deveria continuar na liderança. Quando a poeira emocional baixava, eu olhava para trás e lembrava do que já tinha construído desde que assumi o cargo. Hoje, mantenho uma lista atualizada das grandes e pequenas vitórias. Ela serve de lembrete, especialmente nos momentos de crise, do impacto real que o meu trabalho tem na vida dos alunos, dos professores e da comunidade. O único propósito dessa lista é me lembrar de que fui escolhido por ter competências específicas para fazer a diferença. Isso me dá forças para seguir em frente e avaliar as metas anuais da escola. É um sinal de que o trabalho continua, e eu sigo junto com ele.

Comemore os acertos: é praticamente impossível passar um dia na escola sem receber uma notícia ruim. Na verdade, as vitórias na gestão às vezes são raras, e é por isso que precisamos valorizar cada uma delas. Lembro-me de uma reunião de feedback (retorno avaliativo) com um professor após uma observação de aula. Saí da conversa achando que tinha sido positivo, mas sem a certeza se ele tinha encarado da mesma forma. Semanas depois, esse professor me procurou entusiasmado, contando que as orientações tinham funcionado muito bem na prática. Ele compartilhou como os estudantes reagiram à mudança e o impacto pedagógico positivo que viu em pouco tempo.

Aquela vitória confirmou que meu trabalho fazia sentido e renovou minha motivação para seguir em frente. Mas o mais valioso foi a confiança conquistada: a equipe percebeu que as minhas observações de sala de aula não eram para “cumprir tabela” ou um processo punitivo e fiscalizatório, mas sim um apoio estruturado para o desenvolvimento da prática docente deles.

Como gestores, temos uma tendência natural ao viés da negatividade: os momentos ruins costumam ecoar na nossa mente por muito mais tempo do que as coisas boas. É inegável que todos nós vamos sentir insegurança em algum momento, e essa dúvida pode até ser um termômetro saudável. Ela funciona como um freio contra o excesso de confiança e nos obriga a sermos reflexivos.

Manter a motivação é um processo intencional. Começa na nossa mentalidade, passa pela ação de buscar uma comunidade profissional e se consolida na busca ativa por momentos para celebrar. Esses três movimentos criam uma frequência que abafa as incertezas e aumenta o volume das nossas competências, mantendo o ritmo e a saúde mental de quem lidera a escola.

Fonte: Portal Porvir - George Farmer do Edutopia

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