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IA na escola: quando a inovação vira pressão para o professor

Em sua coluna deste mês, Débora Garofalo defende que a inteligência artificial deve integrar o repertório do docente, sem se tornar a sua totalidade. Para ela, é urgente que a escola construa uma relação mais saudável e equilibrada com a inovação

“Professor, professora, você já está usando inteligência artificial?”

A pergunta, que poderia ser apenas uma curiosidade de um estudante, passou a fazer parte do cotidiano de muitas escolas. Ela aparece em reuniões pedagógicas, formações continuadas, encontros com gestores e, cada vez mais, nas conversas entre docentes.

O problema não está na pergunta em si, mas no que muitas vezes vem por trás dela: a expectativa de que todo docente precise utilizar inteligência artificial para demonstrar que está atualizado, inovando e acompanhando as transformações do mundo.

Na sala dos professores, essa pressão aparece de maneira ainda mais concreta: “Eu sei que preciso aprender IA, mas não sei por onde começar”; “Estão pedindo para a gente usar, mas ninguém explicou exatamente como”; “Será que, se eu não usar inteligência artificial, vão achar que estou desatualizado?”; “Eu já tenho tanta coisa para fazer. Agora também preciso aprender todas essas ferramentas?”. Essas falas revelam uma questão que precisa ocupar espaço no debate educacional: a ansiedade docente diante da velocidade com que a inteligência artificial está chegando às escolas.

Há uma contradição importante nesse movimento. Ao mesmo tempo que defendemos uma educação mais humana, criativa e significativa, podemos estar construindo uma cultura de inovação que impõe ao professor mais uma obrigação. A tecnologia, que deveria ampliar possibilidades, corre o risco de se transformar em outra fonte de cobrança.

A inteligência artificial tem potencial para contribuir com a educação. Pode apoiar o planejamento, ampliar repertórios, auxiliar na elaboração de materiais, favorecer diferentes estratégias de aprendizagem e contribuir para determinadas tarefas do cotidiano docente. Entretanto, reconhecer essas possibilidades não significa transformar seu uso em requisito para uma boa prática pedagógica.

Conhecer inteligência artificial é uma necessidade. Usá-la em todas as situações, não.

A narrativa da modernização tecnológica costuma partir de uma ideia aparentemente simples: se o mundo está usando inteligência artificial, a escola também precisa utilizá-la. Existe, porém, um salto perigoso entre acompanhar uma transformação social e incorporar qualquer tecnologia de forma indiscriminada.

Uma escola não se torna inovadora apenas porque usa mais ferramentas digitais. Da mesma forma, um professor não se torna mais competente por utilizar inteligência artificial em maior quantidade.

A pergunta mais importante não deveria ser “quanto de IA estamos usando?”, mas “qual experiência de aprendizagem estamos proporcionando aos estudantes?”.

Essa mudança de perspectiva desloca a tecnologia do centro e devolve ao processo pedagógico aquilo que deve permanecer como prioridade: os estudantes, seus contextos, suas necessidades e os objetivos de aprendizagem.

Imagine, por exemplo, uma professora que pretende desenvolver a capacidade de argumentação de sua turma. Ela pode recorrer a uma ferramenta de inteligência artificial para gerar diferentes pontos de vista sobre um determinado tema. Mas também pode organizar um debate, distribuir textos com posições divergentes, propor uma investigação ou pedir que os estudantes construam argumentos coletivamente. Se o objetivo é desenvolver a argumentação, o simples uso de IA não torna uma dessas estratégias superior às demais.

Da mesma maneira, se o objetivo é promover colaboração, um projeto coletivo pode fazer mais sentido do que uma atividade individual mediada por uma ferramenta digital. Se o objetivo é estimular a criatividade, os estudantes podem ser colocados diante de um problema concreto, com materiais para criar e rever soluções.

É por isso que a inteligência artificial precisa entrar na escola pela porta da intencionalidade pedagógica, e não pela porta da obrigação.

Primeiro definimos o que queremos que os estudantes aprendam. Depois pensamos em metodologias e experiências capazes de favorecer essa aprendizagem. Só então avaliamos se uma tecnologia, entre tantas outras possibilidades, pode contribuir.

Há muita inovação fora das telas

Um dos efeitos da pressão tecnológica é fazer parecer que o que não envolve ferramentas digitais é antigo ou pouco inovador. Precisamos combater essa ideia. Há muita inovação fora das telas.

Um projeto que investiga um problema ambiental do território, uma atividade experimental, uma simulação, um debate, uma produção coletiva ou uma construção maker podem promover aprendizagens profundas sem recorrer à inteligência artificial.

A cultura maker é um bom exemplo. Criar, construir, testar, errar e reconstruir são processos fundamentais para o desenvolvimento da criatividade e da resolução de problemas. Isso pode envolver robótica e programação, mas também papelão, sucata, tampinhas, barbante, madeira e outros materiais disponíveis na escola.

Na perspectiva STEAM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), os estudantes são convidados a articular diferentes áreas do conhecimento para compreender problemas e construir soluções. Novamente, a tecnologia pode fazer parte desse processo, mas não determina, sozinha, a qualidade da experiência.

Um estudante que constrói um protótipo com materiais simples e precisa calcular suas dimensões, pesquisar possibilidades, discutir com os colegas, testar uma solução e modificá-la depois de um erro está vivenciando uma experiência complexa de aprendizagem. A ausência de inteligência artificial não diminui a força pedagógica desse processo.

Precisamos, portanto, defender uma escola que amplie as possibilidades metodológicas, em vez de substituir uma fórmula por outra. Durante muito tempo, criticamos a ideia de que uma única metodologia poderia responder à diversidade das salas de aula. Não faz sentido repetir esse erro agora ao apresentar a inteligência artificial como solução universal.

A IA é mais uma possibilidade no repertório do docente. Não precisa se transformar no repertório inteiro.

O professor não deve competir com a inteligência artificial

Outro componente da ansiedade docente está relacionado ao medo de perder relevância. Se uma ferramenta consegue produzir um texto em segundos, criar uma atividade, elaborar perguntas ou organizar informações, o que sobra para o professor?

Essa pergunta precisa ser enfrentada sem alarmismo. O trabalho docente nunca se resumiu à producação de textos, exercícios ou informações. Ensinar envolve observar, interpretar, mediar, criar vínculos, compreender contextos, identificar dificuldades e tomar decisões pedagógicas.

Uma inteligência artificial pode até produzir uma atividade sobre determinado conteúdo. Mas não dispõe, por si só, do conhecimento que o professor constrói na convivência com a turma. Não sabe necessariamente que uma estudante compreende melhor um conceito quando pode visualizá-lo. Não percebe, da mesma maneira, que determinado aluno deixou de participar por estar enfrentando uma dificuldade. Não conhece a história daquela comunidade, as relações estabelecidas entre os estudantes e as experiências que fazem com que determinado conteúdo ganhe significado para aquele grupo.

Essas informações orientam escolhas constantes. Por isso, a inteligência artificial não deveria ser apresentada como concorrente do professor, mas como uma ferramenta que, em determinadas situações, pode ampliar sua capacidade de ação.

A ferramenta pode gerar possibilidades. Cabe ao professor avaliar, contextualizar, adaptar, questionar e decidir.

O caminho para reduzir a ansiedade é formar, não cobrar

Se existe uma pressão crescente sobre os professores, a resposta institucional não pode ser simplesmente exigir que todos utilizem inteligência artificial. É preciso criar condições.

A primeira delas é uma formação continuada que não se limite a um treinamento de ferramentas. Ensinar “como usar” é insuficiente. O professor precisa compreender para que, quando e, principalmente, quando não utilizar.

Uma formação consistente precisa abordar potencialidades e limites, autoria, ética, privacidade, vieses, pensamento crítico e os impactos na aprendizagem. Precisa apresentar situações concretas de sala de aula e permitir que os professores analisem diferentes possibilidades.

Mais do que sair de uma formação sabendo utilizar dez ferramentas, o professor deveria sair sabendo avaliar uma nova ferramenta que sequer existia quando participou da formação.

Essa é uma competência mais duradoura.

Outro elemento fundamental é o tempo. Não podemos apresentar uma tecnologia hoje e esperar que, amanhã, todos os professores a tenham incorporado às suas práticas. A experimentação exige tempo para testar, observar resultados, identificar problemas e fazer ajustes. E é justamente aí que os espaços coletivos da escola podem desempenhar um papel importante.

A sala dos professores pode se transformar em um espaço de troca de experiências. Um professor pode compartilhar uma estratégia que funcionou. Outro pode contar que tentou a mesma proposta e enfrentou dificuldades. Um terceiro pode apresentar uma alternativa.

“Na minha turma funcionou.”

“Na minha não funcionou.”

“Eu adaptei dessa maneira.”

Esse tipo de diálogo é uma forma poderosa de formação continuada, pois reconhece o conhecimento produzido pelos próprios professores.

Uma cultura de apoio, e não de vigilância

A escola também precisa construir uma relação mais saudável com a inovação. Em vez de perguntar permanentemente “quem já está usando IA?”, pode perguntar “que experiências vocês estão tendo com essa tecnologia?”. Em vez de criar rankings informais de professores mais ou menos atualizados, pode abrir espaços para compartilhar dúvidas e descobertas. Essa mudança de cultura é essencial.

O professor precisa ter condições de dizer que ainda não sabe, experimentar e errar, mudar de ideia e ter a chance de reconhecer que determinada ferramenta não funcionou. E também precisa ter espaço para compartilhar uma solução interessante. Isso significa substituir uma cultura de vigilância por uma de apoio.

A velocidade das transformações tecnológicas não pode determinar o ritmo de aprendizagem dos professores. Cada profissional terá uma trajetória diferente de apropriação. Alguns experimentarão rapidamente. Outros precisarão de mais tempo. Alguns encontrarão aplicações imediatas. Outros perceberão que determinadas ferramentas não atendem às suas necessidades.

Respeitar essas diferenças não significa ficar parado. Significa construir uma mudança sustentável.

Menos pressão, mais propósito

A inteligência artificial já faz parte da sociedade e continuará a provocar transformações profundas. A escola precisa compreender esse movimento e preparar professores e estudantes para lidar criticamente com ele.

Mas acompanhar uma transformação não significa correr sem direção. O futuro da educação não será definido pela quantidade de inteligência artificial presente nas escolas, mas pela capacidade de formar pessoas que saibam pensar criticamente, criar, colaborar, resolver problemas, avaliar informações e tomar decisões responsáveis.

Para isso, precisamos de professores que também tenham condições de pensar, criar, experimentar e decidir.

Talvez o primeiro passo para enfrentar a ansiedade docente seja justamente retirar dos professores a obrigação de provar que estão inovando. Precisamos trocar o “você precisa usar IA” por “vamos compreender onde a IA pode contribuir”. Trocar a cobrança pela formação. A velocidade pela experimentação. A obrigação pela autonomia. E o medo de ficar para trás pela segurança de fazer escolhas pedagógicas conscientes.

A inteligência artificial pode ampliar possibilidades na educação, mas não pode definir o que é uma boa educação. Essa decisão continua sendo pedagógica. Continua sendo humana. E continua pertencendo ao professor. Porque, diante de uma tecnologia que promete fazer cada vez mais, talvez a competência mais importante do professor seja saber exatamente o que vale a pena fazer, com IA ou sem ela.

Débora Garofalo - Professora, mestra em Educação, gestora em inovação, integrante da comissão municipal de Direitos Humanos, embaixadora do Instituto Ayrton Senna e da Varkey Foundation. Considerada uma das 10 melhores professoras do mundo pelo Global Teacher Prize. Em 2026, foi reconhecida como Global Teacher Influencer pelo impacto de sua atuação na educação pública brasileira.

Fonte: Portal Porvir - Débora Garofalo

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