Professores de matemática veem propósito na carreira e apontam lacunas na formação
Levantamento inédito liderado pelo MEC, que teve apoio técnico do Porvir, traz dados sobre formação, práticas, crenças e o quanto esses docentes se sentem preparados para ensinar matemática
As grandes avaliações que investigam o cenário de aprendizagem da matemática no Brasil e no mundo geralmente se guiam pelas respostas e desempenho dos estudantes.
Nessa área, as lacunas são alarmantes e bem documentadas. O Pisa 2022 (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, exame mundial para estudantes de 15 anos) revelou que 7 em cada 10 estudantes brasileiros apresentaram desempenho abaixo do básico em matemática. Já o Saeb 2023 (Sistema de Avaliação da Educação Básica) mostrou que apenas 5% dos estudantes da rede pública concluem o ensino médio com aprendizagem adequada.
Diante dessa urgência em garantir o direito à aprendizagem e mobilizar diferentes atores envolvidos em educação, uma pesquisa inédita lançada pelo MEC (Ministério da Educação) adotou como estratégia ouvir professores para entender anseios, crenças, potenciais e relação com os alunos. Intitulado “Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática”, o projeto foi realizado entre março e abril de 2025 e ouviu mais de 57 mil professores.
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A metodologia combinou a adesão voluntária ao sorteio de 3.592 escolas, cobrindo do ensino fundamental ao médio. A estratégia ampliou o alcance territorial da escuta e permitiu reunir uma base robusta, com participação de docentes de diferentes regiões, etapas de ensino e dependências administrativas.
A iniciativa foi realizada em articulação com o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e o Consec (Conselho Nacional de Secretários de Educação das Capitais), contando com o apoio técnico do Porvir, da Rede de Conhecimento Social, do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) e da Fundação Itaú.
Professores e a profissão
Orgulho e propósito definem a relação dos docentes com a matemática. A grande maioria (94%) vê forte sentido no que faz e gosta do ambiente escolar, sentindo-se especialmente motivada quando percebe o avanço dos estudantes. Esses profissionais também acreditam no valor social da matemática: a disciplina é importante para desenvolver a autonomia, a cidadania e a inserção no mercado de trabalho.
No cotidiano da sala de aula, porém, eles relatam desafios relacionados tanto à própria atuação quanto à aprendizagem dos estudantes. Segundo dados levantados pela Escuta, abordagens tradicionais, como a explicação de conceitos e a memorização de regras, ainda estão presentes em proporção semelhante à de práticas que conectam os conteúdos à vida cotidiana, aos conhecimentos prévios dos alunos e à resolução de problemas.
O relatório pontuou que apenas uma minoria está convicta de que consegue escolher estratégias adequadas no momento de ensinar (cerca de 2 em cada 10). Apenas 30% concordam totalmente com a afirmação de que, com esforço, são capazes de ensinar até mesmo os estudantes com mais dificuldade.
“Essa falta de confiança pedagógica está relacionada a desafios estruturais e formativos. Professores e professoras dizem que a formação inicial e continuada foi importante para os seus conhecimentos de matemática, mas reconhecem, em menor grau, a contribuição para a prática pedagógica e para o conhecimento sobre como os estudantes aprendem. Eles também se sentem menos preparados para trabalhar com a diversidade e adaptar o ensino a diferentes níveis de aprendizado”, aponta o relatório.
Tatiana Klix, diretora-executiva do Porvir, ressalta que, embora os desafios da aprendizagem sejam multifatoriais, realizar um projeto como este é uma maneira de estruturar ações de garantia de aprendizado.
“O conjunto de dados levantados junto aos professores e professoras que participaram da pesquisa traz reflexões, percepções e informações que podem ser importantes para diversas ações, tanto no campo das políticas públicas quanto para os próprios professores, as escolas e as redes em seus planejamentos”, comenta. “Também pode contribuir com aqueles que desenvolvem materiais didáticos, preparam formações e atuam, de diferentes formas, no ensino e na aprendizagem da matemática”, destaca Tatiana.
Formação docente e a preparação para dar aulas
Ensinar requer preparação constante. Os professores se preparam antes mesmo de entrar em sala, mas precisam remodelar constantemente suas práticas e o domínio dos conteúdos que ensinam.
Segundo a pesquisa, 54% dos docentes que atuam nos anos iniciais relataram ter base sólida em fundamentos da educação, mas o índice cai quando o tema é didática (39%) ou conteúdos específicos (40%).
Já nos anos finais e no ensino médio, o percentual de domínio do conteúdo sobe para 70% a 72%, respectivamente, com um cenário semelhante em relação à didática: 61% nos anos finais e 63% no ensino médio.
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Essas diferenças de preparo entre as etapas ajudam a explicar a importância da formação continuada e o desejo de tornar as aulas mais significativas. A aproximação entre o conteúdo escolar e a vida cotidiana já é realidade para 89% dos docentes, o que sustenta a análise de Kátia Schweickardt, secretária de Educação Básica do MEC.
Para ela, a escuta confirma que os professores de matemática desejam seguir aprendendo e construindo novas estratégias para apoiar cada estudante. “Há um interesse muito grande pela formação continuada e pelo fortalecimento do ensino da matemática nas escolas públicas, e isso é um sinal importante para a construção das políticas educacionais“, afirma.
Quanto ao preparo, educadores que atuam nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio mostraram-se mais confiantes, uma vez que 93% dos professores disseram estar preparados. A percepção sobre o domínio do conteúdo também é alta, com 97% e 98%, respectivamente.
Esse otimismo cai entre os que atuam nos anos iniciais, etapa em que 85% sentem-se preparados para ensinar matemática e 76% para a didática. Por serem polivalentes, as formações iniciais nem sempre dedicam grande carga horária aos conteúdos de matemática, o que pode explicar esse cenário no caso desse público em específico.
Outros achados da pesquisa
A escuta também identificou que mais de 75% dos docentes escolheriam a carreira novamente.
Quase a totalidade (95%) afirmou ter como objetivo ensinar a matemática de forma que os estudantes resolvam problemas do mundo real. Entre os que acreditam que todos os estudantes podem aprender matemática, 9 em cada 10 endossam essa afirmação.
O engajamento das turmas passa pelo incentivo à participação em olimpíadas ou competições, prática adotada por 46% nos anos iniciais e que sobe para cerca de 80% nos anos finais e no ensino médio.
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Fonte: Portal Porvir - Redação
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