Grêmios estudantis são porta de entrada para debater cidadania e democracia
Como os professores e gestão escolar podem incentivar o engajamento da turma, aproveitando o ambiente escolar para desenvolver habilidades como liderança, comunicação e postura democrática
Mais do que ensinar conteúdos de diferentes áreas do conhecimento, a escola tem o papel de preparar os estudantes para viver e participar da sociedade. Para isso, também contribui para o desenvolvimento de habilidades como liderança, comunicação e colaboração, em diálogo com as competências previstas na BNCC (Base Nacional Comum Curricular).
Diante das mudanças provocadas pelo uso da tecnologia na vida de adolescentes e jovens, esse desafio envolve repensar as formas de ensinar, aprender e participar do cotidiano escolar. Gestores e coordenadores, porém, não precisam conduzir essas transformações sozinhos. Os próprios estudantes podem contribuir para construir uma escola mais conectada às suas necessidades e experiências.
É nesse contexto que os grêmios estudantis ganham importância. Eles aproximam os estudantes das decisões da vida escolar e criam um espaço no qual os alunos podem expressar suas ideias e participar da construção da escola que desejam.
De acordo com o Mapeamento de Grêmios Estudantis no Brasil, somente 12% das escolas públicas do país possuem grêmios. O levantamento indica ainda que escolas do campo, indígenas e quilombolas com associações de pais ou conselhos escolares apresentam maior presença de grêmios, em uma relação associada a fatores como gestão democrática e características próprias dessas comunidades.
A criação de um grêmio, no entanto, não exige estruturas complexas. Na Escola Estadual Professora Maria Odila Guimarães Bueno, em São Paulo (SP), as atividades são adaptadas de acordo com a faixa etária dos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental. Cada turma tem seu representante escolhido pelos próprios colegas.
A vice-diretora Marlucia Ferreira Santos destaca que os professores e a equipe de gestão acompanham os estudantes na organização das atividades. “Todos participam. Eles elegem seus representantes, podem apresentar sugestões, participar das campanhas e contribuir com ideias. O grêmio representa a voz dos alunos, mas todas as crianças fazem parte desse processo”, relata.
Seja divulgando campanhas de conscientização ou incentivando a leitura, a docente avalia que a participação dos alunos gremistas auxilia a ouvir a voz dos jovens e compreender melhor as demandas da comunidade escolar.
É nessa possibilidade de reunir múltiplas opiniões que também desenvolvem aprendizados sobre maneiras de se colocar no mundo. Paulo Carrano, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenador do Observatório Jovem do Rio de Janeiro, acredita que os grêmios são “um laboratório de práticas democráticas e de engajamento cívico”.
Ou seja, ao tratar de assuntos do cotidiano da escola, adolescentes e jovens também se preparam para participar de outros espaços da sociedade. “A experiência de lutar, por exemplo, por melhorias, organizar eventos e dialogar com a gestão escolar desenvolve um senso de pertencimento e de responsabilidade coletiva que é fundamental para a vida em sociedade”, destaca o docente.
Participação jovem
Incentivar que os estudantes participem ativamente das decisões da escola é um eixo fundamental dos grêmios. O Programa Nacional de Grêmios Estudantis – Participa Jovem Educação, por exemplo, é uma iniciativa do governo federal que busca fortalecer a participação estudantil, a cultura democrática, o diálogo e a construção de um ambiente escolar mais participativo.
Recentemente, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou um projeto que prevê a criação de grêmios nas escolas e busca garantir a autonomia e a participação dos estudantes no ambiente escolar. O texto ainda segue em tramitação.
Buscar melhorias e levar essas demandas para a gestão prepara os estudantes para um outro tipo de engajamento, no qual aprendem a construir pautas, dialogar e negociar com diferentes atores institucionais. Em um contexto de polarização política, Paulo também acredita que a participação em um grêmio é ainda mais significativa quando o assunto é debater a convivência de forma democrática.
“É um espaço no qual o jovem aprende a defender suas ideias, ouvir o outro e construir consensos. Em um cenário de crescimento do discurso de ódio e da intolerância à diferença, essa habilidade se torna um antídoto essencial para a própria sociedade. A experiência de participar de um debate regrado, respeitar a vez de falar e confrontar argumentos com base em fatos é uma vivência que vai muito além dos muros da escola”, declara o pesquisador.
Paulo afirma que os jovens tendem a se engajar mais em causas específicas do que em instituições. O recente estudo “Juventudes: um desafio pendente”, desenvolvido pela Fundação Friedrich Ebert, mostrou que a participação das juventudes ainda é bastante reativa, marcada por curtidas e compartilhamentos, sem necessariamente resultar na produção de conteúdo original ou no envolvimento direto em mobilizações.
“É importante que o grêmio atue sobre problemas reais da escola e da sociedade, além de dialogar e se conectar com outros coletivos juvenis que surgem em torno de pautas culturais, de gênero, raça, religião e outras. Essa interação fortalece o debate e a luta por direitos, não apenas dentro da escola, mas também no entorno social mais amplo”, pontua Paulo.
O levantamento também mostrou que, quando o assunto é democracia, 66% das juventudes acreditam que essa é a melhor forma de governo. Mas há um sinal de alerta: 58% avaliam que um líder forte resolve melhor os problemas do que partidos ou instituições, e 49% acreditam que é possível existir democracia sem partidos políticos.
Olhar de quem está dentro
Kleberson Kauã Brandão de Moura, de 17 anos, é vice-presidente do grêmio estudantil da EEMTI Plácido Aderaldo Castelo, em Fortaleza (CE). Atualmente no 2º ano do ensino médio, teve sua primeira experiência em grêmios estudantis a convite da diretora da escola, quando ainda estava no 7º ano do ensino fundamental. Mesmo trocando de escola, ele nunca mais deixou de participar.
Ele não se considera tímido, característica que, segundo ele, ajuda em sua atuação no grêmio. “Sempre fui assim: de conversar, de ir atrás, de dialogar com a gestão da escola. Foi por isso, inclusive, que recebi o primeiro convite da diretora para participar do grêmio estudantil”, conta o estudante.
Como alguém orgulhoso do que faz, Kleberson considera difícil selecionar apenas um projeto que tenha desenvolvido e que goste muito. É como se todos tivessem seu papel especial. O estudante cita o projeto “Minha sala na limpeza”, que partiu da observação de cuidados nas salas de aula:
“O pessoal da limpeza estava reclamando muito, dizendo que a situação estava extrapolando. Então criamos o projeto, que tinha uma premiação: sair mais cedo, lanchar mais cedo ou algo do tipo. A proposta era, de fato, incentivar que as salas ficassem mais limpas e organizadas, do jeito que a equipe de limpeza as deixava”, diz o estudante.
Além desse projeto, ele cita o “Recreio Interativo”, em que o grêmio utilizava espaços como o pátio e a biblioteca para estimular atividades como xadrez, cabo de guerra, futebol de mesa e campeonato de jogo de damas. “Também tivemos o ‘Teve Voz’, um concurso de canto muito bacana, em que todos podiam fazer karaokê. Na biblioteca, fazíamos cineclube com debate — era muito legal.”
O estudante avalia que participar do grêmio ajudou e continua ajudando em sua formação política e pessoal. “Aprendemos no nosso cotidiano, no dia a dia escolar, saberes que vão servir para o nosso futuro. Diante de um problema que pode acontecer futuramente, já tenho uma experiência prévia, desde o ensino fundamental, sobre como lidar com algumas situações. A gente entende um pouco de administração, de gestão financeira — afinal, isso também é administração —, de gestão de pessoas, de alunos, da dinâmica das coisas de modo geral. Então, tudo isso ajuda tanto na nossa formação pessoal quanto na formação política, porque, no fim das contas, tudo é político”, acrescenta.
Qual o papel dos educadores?
A participação estudantil não pode ser um fardo. Ao mesmo tempo que é preciso incentivá-la, ela não pode acontecer como uma obrigação somente. Gabriel Medina, mestrando em ciências humanas e sociais e ex-secretário Nacional de Juventude do governo federal, destaca que a missão da gestão não é desenvolver ações pelo grêmio, mas estimular que os próprios estudantes as construam. Esse apoio é especialmente importante no início, quando ainda não compreendem inteiramente as possibilidades de atuação.
“É necessário apresentar o direito de organização, explicar o que significa representar os colegas, orientar a formação das chapas e criar espaços para que elas possam debater, divulgar propostas e afixar cartazes.”
Gabriel, contudo, afirma que é necessário dosar essa participação da gestão. “O que vemos acontecer, muitas vezes, é a direção acabar conduzindo a organização do grêmio e favorecendo chapas formadas por estudantes considerados menos críticos, mais comportados ou com melhor desempenho escolar, em vez de estimular uma representação que surja, de fato, dos próprios jovens”, afirma.
Quando isso ocorre, os grêmios deixam de expressar os desejos e reivindicações dos estudantes e passam a funcionar como uma extensão da gestão. Para evitar que isso ocorra, Paulo sugere que os professores atuem como facilitadores, trazendo referências teóricas, dados e contextos históricos que deem mais consistência aos debates e ampliem a reflexão dos estudantes.
“Os professores podem incorporar a prática do debate às suas disciplinas, criando uma cultura escolar que valorize a argumentação e o contraditório como ferramentas pedagógicas”, diz Paulo.
Marlucia concorda com Paulo: mais do que coordenar, os professores devem incentivar e mostrar como as ideias dos estudantes contribuem para a melhoria da escola, preparando-os para agir de forma democrática.
Kauã conta que em sua experiência no ensino fundamental, havia uma professora que dedicava parte de suas horas-aula para auxiliar nos projetos do grêmio por meio de orientações ou outras articulações com a gestão.
“Agora, no ensino médio, não temos um professor orientador. Nós mesmos gerimos o grêmio diretamente. Mas isso não chega a ser um problema. A gente se organiza por conta própria, sem precisar ficar perguntando se pode fazer isso ou aquilo. Obviamente, tudo ainda passa pela gestão da escola, mas eles nos autorizam”, relata o estudante.
Ele destaca que essa autonomia também é positiva para ele e para os colegas, pois permite que dialoguem diretamente com as demandas que observam na escola e proponham soluções, como no caso do excesso de lixo.
Uma escola que valoriza o debate e o diálogo contribui para o fortalecimento da democracia e para a formação de cidadãos mais preparados para a vida democrática. “O grêmio, como catalisador desse processo, não apenas prepara os jovens para o futuro, mas os convida a viver a cidadania no presente, superando o déficit de experiência cidadã que as pesquisas já revelaram”, ressalta Paulo.
Em um cenário de radicalização política, os grêmios estudantis surgem como espaços de diálogo, construção de cultura de paz e mediação de conflitos. Ou seja, sua atuação vai além da representação estudantil.
Para Kleberson, participar de um grêmio não quer dizer “brigar com a gestão da escola”, mas ser ativo na tomada de decisões sobre o que acontece na escola. Também significa apresentar insatisfações e sugestões.
“Às vezes, o que acontece é que os alunos reclamam muito entre si dizendo, por exemplo: ‘a merenda está muito ruim, a gente não está gostando’, e ficam reclamando entre eles, quando poderiam levar essa questão ao coordenador administrativo-financeiro da escola, responsável pela lista de merenda, e dizer: ‘os alunos estão reclamando muito de tal coisa’. É preciso ter voz dentro da escola”, reforça.
“Saber conversar, para mim, é o mais importante para quem quer participar do grêmio”, destaca. Ele não esquece que a participação também requer uma boa relação com os colegas, entendendo os momentos de descontração, mas também a hora de falar sério quando necessário.
Participação na escola segundo o Porvir
O Porvir desenvolveu o especial “Participação dos Estudantes na Escola”, com uma série de entrevistas e propostas contextualizadas sobre como fortalecer a cultura participativa na escola. O material mostra como envolver jovens em instâncias de decisão pode transformar o ambiente escolar. Com linguagem leve e próxima do universo juvenil, o conteúdo para professores e gestores organiza a participação estudantil em quatro pilares: escuta, escolha, coautoria e corresponsabilização. A ideia é simples: quando os alunos são ouvidos e envolvidos nas decisões, a escola se torna mais democrática e significativa.
Para inspirar, o guia apresenta seis experiências reais em escolas públicas brasileiras. Há casos de educomunicação em Porto Alegre (RS), uso de tecnologia em Santarém (PA) para monitorar a merenda, pesquisas que mudaram práticas pedagógicas em Araçatuba (SP) e coletivos estudantis que ampliaram o diálogo em Minas Gerais e no Ceará. Em cada exemplo, os estudantes aparecem como protagonistas na construção da escola que desejam.
O material também alerta para armadilhas comuns que enfraquecem a participação, como promover ações pontuais sem continuidade ou ignorar a diversidade dos estudantes. O mais importante é ouvir os alunos não como um gesto simbólico, mas como uma forma de repensar a educação a partir de necessidades, experiências e expectativas. Confira o especial neste link.
Fonte: Portal Porvir
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